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Vinho do Porto repete medida da Segunda Guerra Mundial

20 de maio de 2020

O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, representante do Estado na região, garante ao Negócios que não vai travar o acordo entre viticultores e comerciantes para criar uma reserva qualitativa, como no pós-guerra em 1945.

 

Se a pandemia de covid-19 está a ser encarada pelos políticos como uma “guerra”, os produtores de vinho do Porto querem adotar uma solução de emergência para lidar com esta crise. Tal como aconteceu em 1945, na ressaca da Segunda Guerra Mundial, o setor pode avançar este ano com a produção em regime de bloqueio, criando uma espécie de reserva qualitativa em que uma parte do vinho fica guardada e só após um certo período de cinco anos, por exemplo – pode ser colocado no mercado ou usado para as marcas criarem lotes de categorias especiais.

Em causa está o chamado benefício, que é a quantidade de mosto que cada viticultor pode destinar à produção de vinho do Porto e que é uma das principais fontes de rendimento dos produtores durienses. Um valor que é definido anualmente – na anterior vindima foram 108 mil pipas (de 550 litros cada) – em função das necessidades de vendas das empresas. Ora, no atual contexto isso significaria uma quebra entre 20% e 30% em 2020, segundo fontes do setor, pelo que a proposta em cima da mesa passa por permitir um quantitativo superior ao necessário para a campanha. O chamado “benefício de bloqueio” para assegurar o mesmo nível de produção de uvas para vinho do Porto foi proposto pela Associação de Produtores do Douro (Prodouro) como uma forma de evitar a quebra acentuada dos rendimentos dos viticultores, atenuando o excesso de uva no mercado da região e a sua consequente desvalorização. Conta com o apoio da Federação Renovação do Douro/Casa do Douro, que representa a lavoura no conselho interprofissional, o órgão que fixa o benefício, mas também dos grandes operadores que comercializam esses vinhos. O presidente da Taylor’s, Adrian Bridge, já disse que é preciso evitar o “desastre” e dar aos cerca de 20 mil lavradores um sinal de que não vão perder dinheiro, incentivando-os a continuar a investir na vinha.

 

“Solidariedade” entre profissões

Garantido o entendimento mínimo necessário entre os membros da produção e do comércio – a discussão a seguir será sobre o valor a pagar pelo diferencial de pipas –, falta o Governo autorizar essa produção em regime de bloqueio. O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), que é o representante do Estado na região demarcada, disse ao Negócios que não se irá opor ao acordo, reconhecendo que “se mantivermos o número de pipas de benefício e tivermos uma reserva qualitativa, os vitivinicultores vão-se sentir muito mais confortados porque sentem que vai haver compra e precisam de dinheiro para trabalhar nas suas empresas”.

“Estamos abertos a todas as discussões e a todos os caminhos que vão no sentido de ajudar a vitivinicultura duriense. O IVDP será sempre parte da solução e da busca das melhores soluções para que continuemos a crescer de forma correta, com os valores com que vínhamos a crescer, e a termos uma região aberta às pessoas e ao mundo e a crescer de forma solidária entre as profissões – a produção e o comércio”, resumiu Gilberto Igrejas.

O professor de Genética na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que em dezembro de 2018 foi escolhido para suceder a Manuel Cabral à frente do instituto público, sublinhou ainda que uma medida deste género “pode funcionar [bem] em termos de equilíbrios” e ser “uma forma de quase regular também a quantidade de uvas” que vão para o outro vinho que é produzido na mais antiga região demarcada do mundo. É que, argumentou, “havendo uma libertação de uvas para o vinho do Porto, isso significa que vai haver menos disponibilidade para DOC Douro, portanto, esses stocks já não vão engrossar”.

 

Resgatar saldo do IVDP às Finanças

A reivindicação não é nova, mas ressurge com força numa crise. Tanto produtores como comerciantes reclamam a utilização do saldo de gerência do IVDP, que resulta das taxas cobradas na região e que ronda atualmente nove milhões de euros, para fazer ações de marketing que ajudem a estimular o mercado no pós-covid. Gilberto Igrejas diz que tem “ouvido as mensagens” dos operadores, até “percebe o enquadramento”, mas lembra que “essa decisão não é do conselho diretivo nem do presidente do IVDP”. Questionado sobre se está a fazer algo para que a discussão avance no Governo a decisão final é das Finanças, o responsável diz que “[prefere] não avançar com essa resposta”.

 

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Fonte: Jornal de Negócios